O secretário-executivo do
Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, disse ontem, durante o painel
sobre questões macroeconômicas do 22º Fórum Nacional, que fazer a reforma
tributária "é a principal tarefa do próximo governo", independentemente de
qual seja ele. Segundo o secretário, a tributação elevada e o câmbio
sobrevalorizado são duas das principais barreiras ao crescimento das
exportações brasileiras de manufaturados.
"Mudar o sistema tributário não é fácil, mas é urgente", afirmou,
acrescentando que "quando aumenta a competição internacional, as dificuldades
tributárias tornam-se mais visíveis e impeditivas". O pior, de acordo com o
secretário, é que outras regiões estão avançando na desoneração dos seus
produtos, enquanto o Brasil não consegue fazer o mesmo.
O Leste Europeu, que tinha carga tributária elevada por conta da herança do
antigo regime socialista, está mudando, disse Barral. "Boa parte do Leste
Europeu já tem carga tributária inferior a 20%." O secretário disse ainda que
o governo federal reconhece o problema, mas ressaltou que grande parte do
problema está na tributação estadual, que só pode ser resolvida pela via da
reforma.
Barral reconheceu que o câmbio sobrevalorizado também é um problema para as
exportações. Segundo ele, há permanentemente um debate dentro do governo sobre
o assunto e que "não há explicação fácil". Ainda que o câmbio atrapalhe a
competitividade, Barral disse que as oscilações constantes do preço da moeda
americana, como ocorre agora, durante a crise europeia, e a desvalorização
artificial das moedas de países concorrentes, especialmente da China, são
problemas ainda maiores.
A insuficiência de inovação na indústria brasileira foi também considerada um
inibidor do avanço das vendas brasileiras de manufaturados. Para o economista
José Tavares, diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento
(Cindes), o baixo grau de inovação é consequência do fato de o Brasil ter
passado muitos anos crescendo com base no regime de substituição de
importações (a indústria, protegida da concorrência, não precisava inovar).
Para o ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, coordenador do
Fórum Nacional, a falta de integração entre universidades, empresas e
entidades governamentais faz com que a inovação no Brasil fique mais no
terreno da diferenciação de produtos.
Outro tema predominante no debate macroeconômico do Fórum, conforme o
Valor antecipou, foi o da necessidade de redução dos gastos do Estado
como forma de aumentar a poupança doméstica e financiar os investimentos, para
não depender tanto da poupança externa, aprofundando o déficit em conta
corrente.
O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore disse que o déficit
este ano vai chegar a 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e que o Brasil não
pode continuar crescendo 7% ou mais, como deve crescer em 2010. Segundo ele,
como o peso do governo na economia é de 20%, e ele expande seus gastos a 10%,
se essa expansão fosse contida a taxa de crescimento já cairia a 5%.
"Continuar crescendo a 7% é procurar encrenca com a inflação", disse,
acrescentando que o corte nos gastos de R$ 10 bilhões, anunciado recentemente
pelo governo, deveria ter sido maior.