CARTA
ABERTA AO GOVERNADOR
Senhor Governador,
Inicialmente, esclarecemos que várias
solicitações de audiência foram encaminhadas pelas entidades representativas
dos Auditores Fiscais de Minas Gerais – SINDIFISCO-MG e AFFEMG
–para apresentar à V.Exa. as preocupações e insatisfações da nossa categoria.
Nenhuma delas, entretanto, recebeu qualquer resposta, até agora. Por
esta razão, decidimos usar essa outra forma de comunicação.
O conjunto de medidas adotadas pelo governo de V.Exa. desde 2003 contra os
Auditores Fiscais resultou em graves distorções na estrutura administrativa da
Secretaria de Fazenda, na carreira e, principalmente, na remuneração. Na
composição do salário do Fisco, a parcela variável, denominada “plus” e “conta
reserva”, que não é paga nos afastamentos legais, como férias, licenças para
tratamento de saúde, licença maternidade e aposentadoria, importa em
aproximadamente 40% do total da remuneração. Além disso, o pagamento dessa
expressiva parcela de salário está condicionado a uma avaliação de desempenho
individual orientada por critérios subjetivos, determinados pela opinião da
chefia imediata.
No momento, é essa insegurança e vulnerabilidade da remuneração dos Auditores
Fiscais e a necessidade de correção desse quadro, o principal tema das
discussões com o senhor secretário de Fazenda, Simão Cirineu. Argumentamos que
essa forma não salarial de remunerar o trabalho foi superada com a revolução
industrial, no século XIX e, portanto, o que se vê hoje na Secretaria de
Fazenda configura-se um retrocesso inaceitável. Mas não bastasse
manifestar desconhecimento do processo histórico que resultou na conquista de
direitos do trabalhador, o senhor secretário optou pelo escárnio.
Em reunião no Gabinete da Secretaria, com os representantes das entidades, o
senhor secretário ouviu circunstanciado relato de que vários servidores estão
trabalhando, mesmo gravemente enfermos. Foram-lhe relatadas situações de
colegas que fazem tratamento quimioterápico, em serviço, outros que, após
sofrerem um AVC, acabam retornando ao trabalho dias depois de deixarem o
hospital, colegas com câncer em estado terminal, que continuam trabalhando até
poucos dias antes de falecerem, porque não podem ficar sem uma parcela
substancial do salário, no momento que mais precisam dele. Todos, enfim,
submetidos à implacável dinâmica imposta por esta remuneração, que só é paga
pelos dias efetivamente trabalhados.
O senhor secretário, respondendo, afirmou que essa forma de remuneração evita
uma avalanche de atestados médicos e pedidos de afastamento. Deixou claro,
ainda, que sem a sistemática de premiação na forma imposta, não há garantia de
que as metas sejam cumpridas. Os argumentos expostos pelo senhor secretário
deixam claro o baixo conceito que ele tem dos servidores de sua pasta e
evidenciam o desprezo que nos é dispensado.
Em outra ocasião, em reunião com os funcionários fazendários na cidade de
Governador Valadares, mediante o relato de óbito ocorrido recentemente, em que
o auditor trabalhou até poucos dias antes de morrer, e a viúva e dependentes
vão receber pouco mais de 40% da remuneração percebida em vida pelo falecido,
pois a parte variável não é incorporada para fins de pensão, o senhor
secretário foi curto e grosso: “ora, não vai receber porque ele não
colocou na poupança!”.
Nós, Auditores Fiscais de Minas Gerais, estamos decepcionados e perplexos.
O governo de V.Exa., representado legalmente pelo titular da Secretaria de
Estado de Fazenda, não apenas revelou despreparo e absoluta insensibilidade,
como foi além e resolveu tripudiar sobre a nossa grave situação.
Senhor governador, gostaríamos de saber se esta é a orientação de seu governo.
Se não, solicitamos que receba os representantes das entidades do Fisco –
SINDIFISCO-MG e AFFEMG – para conhecer as propostas da categoria
para correção dessa grave situação.