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Inflação, alta de juros e o papel do Estado no cenário da Covid-19

Inflação, alta de juros e o papel do Estado no cenário da Covid-19
Marco Túlio da Silva

Inflação, alta de juros e o papel do Estado no cenário da Covid-19

14/4/2021

A pandemia assemelha-se em muitos aspectos a um cenário de guerra, que desestrutura o sistema produtivo, reduz a oferta, e impacta os preços para cima, aumentando a inflação.

Assim, em todo o mundo, e em especial nos países que foram menos eficazes na proteção do sistema produtivo, tem-se nítida a inflação gerada por escassez de oferta, o que requer apoio do Estado às empresas, especialmente as pequenas e médias e aquelas de setores mais afetados pela pandemia.

Mas, no Brasil, a solução apontada pelo Banco Central em relação à inflação foi a elevação da taxa de juros, sob o argumento de que isto irá contê-la.
Será?

A inflação gerada por excesso de demanda realmente é inversamente impactada com a elevação de juros. Mas elevar juros, para conter inflação com origem na escassez de oferta, parece pouco eficaz. Isso (elevação da taxa de juros) no caso só faz encarecer e dificultar o crédito, elevar o custo da dívida (privada e pública) e pode até gerar mais inflação, por desestruturar ainda mais o sistema produtivo, impactar a oferta e os preços e até aumentar o déficit fiscal.

Mas, o contexto brasileiro atual ainda é mais específico. É que, além da escassez de oferta, a alta dos preços de commodities agrícolas e do petróleo no mercado internacional, reforçada pela alta do dólar, foram os itens que mais elevaram a inflação.

Não vamos aqui tratar do papel das commodities na economia brasileira, da política de preços da Petrobras, da Teoria Quantitativa da Moeda, do pretenso papel do Banco Central sobre o controle da quantidade de moeda em circulação e nem da questão cambial. Limitaremos-nos ao fato público e notório de que o momento exige investimento público, apesar da brincadeira de mau gosto que a recente proposta do orçamento federal representa.

Antecipando à pergunta que virá (De onde sairá o dinheiro para investir?), a resposta é simples: da elevação pontual de impostos para pessoas e empresas com maior riqueza e renda. Sobre investir em períodos de crise, a lição remonta aos ensinamentos de Keynes, que foram lapidados por Kalecki e outros, na linha de melhor qualificar o gasto público com investimentos estratégicos.

Neste sentido, o país com o maior número absoluto de mortos pela Covid-19, os Estados Unidos, aprovaram em março de 2021 o American Rescue Plan Act of2021, projeto de estímulo econômico de US$ 1,9 trilhão, com medidas que vão desde a oferta de auxílio emergencial, doação a pequenas empresas, investimento sem infraestrutura e tecnologia, passando pela elevação pontual de impostos para pessoas e empresas com maior riqueza e renda (assunto oportuno diante do atual debate sobre a reforma tributária no nosso país).

E no Brasil, qual será o papel que o Estado irá desempenhar? Continuar elevando juros, cortando gastos sociais, pagando auxílio emergencial pífio e tributando mais quem pode menos?

Impor fechamento de atividades econômicas sem apoio às empresas impactadas e determinar lockdown sem auxílio emergencial digno é pouco provável de se lograr êxito.

Diante de soluções equivocadas, as mortes irão continuar e, com isso, além do sofrimento das pessoas, haverá o custo gerado para o sistema público de saúde, talvez até maior do que o gasto que poderia ter sido alocado em investimento público estratégico.

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