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SAMBA, SUOR E CERVEJA: reflexões e lições não aprendidas em tempos de pandemia.

SAMBA, SUOR E CERVEJA: reflexões e lições não aprendidas em tempos de pandemia.
Marco Túlio da Silva

SAMBA, SUOR E CERVEJA: reflexões e lições não aprendidas em tempos de pandemia.

19/5/2020

Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem. (Zygmunt Bauman)


Ato 1 (o samba)

Consta da Wikipedia[i]que o primeiro Carnaval em Belo Horizonte (BH) data de 1897. A folia de carnaval em BH foi popular até os anos 1990, quando o samba cedeu lugar ao silêncio e meditação. A festa e o samba ressurgiram em 2009, com blocos carnavalescos e protesto social.

O contexto foi que em 2009, o então prefeito Marcio Lacerda impôs restrições a eventos nas ruas sem autorização da prefeitura, então surgiu a crítica bem humorada à restrição. Vários blocos surgiram no Carnaval, em geral levantando bandeiras de diversidade cultural e reflexão crítica. O movimento que começou como protesto social de cunho político foi ampliando, diversificando e, a cada ano, batendo recordes de público.

Uma das características marcantes do novo Carnaval belo-horizontino são os blocos de rua, com viés político-reflexivo e de inclusão social. Em 2017, Belo Horizonte teve o maior Carnaval da sua história e terceiro maior do Brasil, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) foram mais de três milhões de pessoas nas ruas, com cerca de 500 mil turistas.

Entre 2017 e 2019 o Carnaval belo-horizontino continuou a crescer. Segundo a PBH [ii] o gasto médio de um folião, em cinco dias de carnaval em 2019, foi de R$718,32.

Ato 2 (o suor)

Com a atração de milhões de pessoas para a folia e outras tantas para organização e funcionamento do evento, movimenta-se diversos atores econômicos desde ambulantes, músicos, dançarinos,produtores culturais, hotelaria, bares, restaurantes até motoristas, entre outros.

A festa passou a aglutinar minorias e a movimentar a economia local não só durante o evento, mas também no período entre o término de um e o início de outro Carnaval, com o planejamento,organização, preparação e ensaios, tudo isso em diversas regionais da cidade.

Ato 3 (a cerveja)

Paralelamente ao renascimento e crescimento do Carnaval de rua e blocos em BH outro movimento, também inclusivo, cresceu como típico da cidade, a cerveja artesanal. Matérias divulgadas por volta de 2015 noticiavam que na Região Metropolitana de BH as cervejas artesanais consolidavam estratégia de abrir as portas das fábricas para visitantes conhecerem a produção das cervejas, a história dos empresários, degustaras bebidas, comprar e levar pra casa... Isso se tornou um roteiro turístico local.

Além de ser conhecida como a capital dos bares, BH também passou a se destacar pela qualidade de suas cervejarias artesanais, que ganharam prêmios nacionais e internacionais e alcançaram o Carnaval, com crescimento econômico em dois dígitos percentuais por anos seguidos.

O Carnaval passou a ser momento econômico especial para as cervejas artesanais e a cerveja artesanal passou a ser especial para Belo Horizonte, coexistindo e concorrendo com gigantes do setor de bebidas.

Ato 4 (a reflexão)

Recentemente uma fabricante de cerveja artesanal estabelecida na Região Metropolitana de BH virou manchete nacional após veiculação de intoxicação e mortes de pessoas que consumiram produtos da marca.

Na Cena 1 deste Ato 4 fica a reflexão sobre a importância dos órgãos de controle e fiscalização. É que além da inerente responsabilidade empresarial do fabricante quanto aos produtos que produz e comercializa, cabe ao poder público zelar pelo bem-estar da coletividade, o que se recomenda fazer pela função preventiva exercida pelas ações de controle e fiscalização. O principal órgão fiscalizador de uma cervejaria é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

No Brasil, em 2017 foram realizadas 2.224 fiscalizações do MAPA. Conforme o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical)[iii], diante das limitações de estrutura cada empresa chega a ficar até cinco anos sem nenhuma fiscalização. Em Minas Gerais existem somente 9 Auditores Fiscais Federais Agropecuários, responsáveis por fiscalizar 994 estabelecimentos produtores de bebidas.

Ressalte-se que os Auditores Fiscais Federais Agropecuários fiscalizam desde a fabricação de vacinas, rações, sementes, fertilizantes, agrotóxicos, produtos vegetais, até sucos, refrigerantes, bebidas alcoólicas, laticínios, ovos e carnes.

À luz do caso concreto é fato incontroverso que a insuficiência de contingente para as atividades de controle e fiscalização prejudica a sociedade e que melhores estruturas de fiscalização poderiam ter evitado a intoxicação, mortes e até o fechamento da referida fábrica.

Situação similar - e muito mais grave - afetou também nossa Minas Gerais com o rompimento de barragens das mineradoras SAMARCO e VALE que ocasionou a morte de centenas de pessoas. No caso a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), ligado ao Ministério de Minas e Energia, responsáveis por fiscalizar barragens da mineração possui apenas 4 Auditores Fiscais em MG ecada um tem cerca de 200 grandes empresas para controle e fiscalização.

Na Cena 2 deste Ato 4 fica a reflexão sobre a onda de crescente desigualdades. No caso das mineradoras, em sua defesa, diversos atores as elegeu como fundamentais para os mineiros, apesar de serem, na verdade, grandes beneficiadas pela sociedade mineira que banca o gasto tributário decorrente da desoneração decorrente da não tributação da maior parte de sua produção, então exportada sem incidência do ICMS (tema afeto à conhecida Lei Kandir), bem como banca o gasto com os efeitos ambientais e de saúde pública causados pela atividade mineradora.

Por outro lado, no caso das cervejarias artesanais, que contribuem para a economia local sem os mesmos benefícios dos primos ricos, elas foram vistas por certo tempo como a “Geni”, algo similar ao que acontece com as minorias em raça, cor, opção sexual, etc.

Ironicamente as minorias que outrora fez renascer e crescer o Carnaval em Belo Horizonte, às vésperas do carnaval de 2020 viram-se massacradas enquanto minoria, ou alguém pensa que os únicos atingidos neste evento são os intoxicados pelo dietilenoglicol, suas famílias e a Backer?

Precisamos de melhores estruturas de fiscalização e de menos desigualdades.

Além das lições não aprendidas e anteriormente pontuadas, desde fins de 2019, Minas passa por uma sequência de sinais emitidos, como que convites a reflexões sobre algumas lições.

Tivemos rompimentos de barragens (maior desastre ambiental do Brasil), que tudo indica poderiam ter sido evitados não fosse a opção econômica em detrimento da vida.

Janeiro de 2020 pode ser classificado como o mês em que mais choveu em Belo Horizonte ao longo dos últimos 110 anos de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e, mesmo abstraindo-se da relação das chuvas com mudanças climáticas causadas pela ganancia humana, os efeitos das chuvas poderiam ser minimizados com um pensar e agir mais coletivo e solidário.

Também em janeiro de 2020 houve a intoxicação por dietilenoglicol, e quando os mineiros ainda estavam na ressacado Carnaval eis que eclode uma pandemia.

Em meio a tudo isso quais as lições aprendidas?

As doenças epidemiológicas que por volta de 1916 deram origem à expressão “o Brasil é um imenso hospital”[iv] já deviam ter consolidado base de aprendizado para muito do que nos sinaliza a pandemia do novo coronavírus e suas consequências, mas parece que não evoluímos tão bem em história, ciências e outras áreas do conhecimento.

Mas se não aprendemos tão bem com o passado, que não ignoremos as lições do presente. Quem puder fique em casa e, se for beber, aprecie sua bebida preferida com moderação. Aliás, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ingerir bebida alcoólica reduz a imunidade e pode, consequentemente, aumentar as chances de contaminação pelo novo coronavírus e de contrair a COVID-19.

Por fim, um esclarecimento, o vírus (coronavírus) que causou o surto atual herdou o nome da família de vírus Coronaviridae. Para especificar avariação atual do vírus usou-se o termo “novo coronavírus”, batizado como2019-nCoV, e depois Sars-CoV-2, que significa “síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2″.

A OMS então definiu a doença respiratória provocada pelo novo coronavírus com o nome de COVID-19, unindo parte das palavras “corona”, “vírus” e “doença” com indicação do ano em que surgiu (2019).

Esclarecimento à parte, explore o infinito de possibilidades que está à sua disposição, evite aceitar a autoridade como argumento, ou uma resposta como a única possível. Pesquise e questione sempre, ainda que alguém porventura considere isso uma balbúrdia. As perguntas movem o mundo e, entre uma pergunta e outra, muitas são as oportunidades de reflexão e de aprendermos importantes lições.


[i] https://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval_de_Belo_Horizonte

[ii] https://prefeitura.pbh.gov.br/noticias/carnaval-de-belo-horizonte-2020-tera-mais-de-500-desfiles-de-blocos-de-rua

[iii] http://www.anffasindical.org.br/index.php/comunicacao/noticias/affa-na-midia/2489-numero-de-fiscais-diminui-quase-pela-metade-em-20-anos-algumas-empresas-como-produtoras-de-vacinas-veterinarias-podem-ficar-ate-20-anos-sem-fiscalizacao

[iv]Expressão citada no discurso do médico Miguel Pereira (renomado professor e clínico) proferido em outubro de 1916 na Faculdade de Medicina do Rio deJaneiro (FMRJ).

Ilustração: Joan Miro - óleo sobre tela - 66 x 93 cm - 1925 - (Albright-Knox Art Gallery (Buffalo, United States)

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